Vontade de brigar com Deus

De perguntar a Ele por que me despreza,

Por que vivo desgarrado, coberto de falsidade, mesquinhez e injúria.

Vontade de sair gritando à sua procura em igrejas fechadas.

Vontade de gritar, gritar, gritar

Para que alguém me ouça e estenda a sua mão.

Vontade de largar a mão,

Ser um mendigo perdido no frio.

Vontade de deitar sob o sol do meio-dia, olhando as andorinhas que cagam em mim.

Vontade de abortar um filho.


Sou impuro,

Sem princípios, caráter ou crença.

Sou o substantivo renegado,

O arroto e o fel.


Vontade de deitar no asfalto

E interromper o trânsito que leva a hospitais e cemitérios.

Vontade de ser acompanhado em presídio de segurança máxima.


Vontade de caçar animais,

Fazer crianças chorarem

E beijar sem ser amado.

Vontade de sorrir na cara de quem reza

E de quem espera por Deus.

 Desiludido


O refrigerante aumentou minhas taxas.

Recebi a notícia,

depois de tantas ameaças,

como uma punhalada.


Não bebia uísque, cachaça, vinho, vodca ou cerveja.

Era Cola e guaraná.


Caminhei pelo campo,

ouvi passarinhos

e observei pernas que caminhavam na praça.

Desiludido,

recusei-me a recusar chocolate

e sentei-me para ouvir música.


O tempo continua,

saltita entre passado e presente.

Tem o desequilíbrio de um jogo olímpico e

Permanece velho, desbotado e estranho.


O refrigerante deixou-me sequelas

que nem sei a intensidade que resta de tanta fusão.

Vejo-me à toa com uma sombra.

Em setembro, no início da primavera, eu desejei beijar-te.
Ouvi Jobim,
visti meu short mais belo e sentei-me na praça.
Sol quente, lembro do sol que queimava minha pele clara
e da rua vazia
de curiosos e transeuntes.
Em setembro, no início da primavera,
as expectativas eram de amar-te e termos filhos.
Você, que parecia nunca chegar, chegou com um sorriso,
pegou meus braços e beijou-me. 

 Dona Isa era meiga

Tão meiga que seu sorriso alcançava a águia que voava

E desfilava a cortar nuvens escuras.

Seu sorriso, tocando em minha mão, era cheiro de carinho e fé.


Dona Isa dorme hoje com Nossa Senhora

Sua ausência vem a mim com sorrisos 

E com a saudade.

 Nasceu no meu quintal,

bem embaixo de umas folhagens secas,

uma plantinha a que dei o nome de Casmurra.


Nasceu num terreno áspero,

possivelmente regado pelo pingo do orvalho das folhas.

Eu a espiava todos os dias

e a vi crescer sem se importar com a minha existência.


Certo dia, pela manhã,

quando o sol adentrou minha janela,

vi que nascera entre suas folhas uma flor,

de uma beleza exótica,

nada digna de sua estrutura que, até aquele momento,

era apenas cativante 


Passei a preocupar-me com olhares estranhos e animais.

Ela seguia sua trajetória,

e eu sofria, enciumado.


Um dia, cumpriu sua jornada

e partiu.

 ABEL NO CÉU


Inquieto,

entrou e sorriu.

Tudo era novo,

mas de longe avistou Dona Jovem, Lindava, Manu e Zequinha.


Sorriu,

manuseando seu chapéu,

que não tremia mais em suas mãos.

Sua voz estava firme,

seu olhar, meigo,

e seus passos já não eram lentos.


Naquele momento, sentiu-se no Caruá, em Santa Cruz, João Ferreira e Cordeiros.


Caminhou assim, sentindo a brisa.

Apressou os passos,

ergueu os olhos e sorriu.

Trazia consigo a eternidade.

Escrevo para os passarinhos.  

Eles me leem quando passam por mim.  

(É um segredo nosso.)  

Cantam e dizem que aprendem comigo os sentimentos ocultos.  

Sou um homem velho  

que se encontra na poesia.