A arte é um passo à frente que o ser humano dá em relação ao seu cotidiano.
Vontade de brigar com Deus
De perguntar a Ele por que me despreza,
Por que vivo desgarrado, coberto de falsidade, mesquinhez e injúria.
Vontade de sair gritando à sua procura em igrejas fechadas.
Vontade de gritar, gritar, gritar
Para que alguém me ouça e estenda a sua mão.
Vontade de largar a mão,
Ser um mendigo perdido no frio.
Vontade de deitar sob o sol do meio-dia, olhando as andorinhas que cagam em mim.
Vontade de abortar um filho.
Sou impuro,
Sem princípios, caráter ou crença.
Sou o substantivo renegado,
O arroto e o fel.
Vontade de deitar no asfalto
E interromper o trânsito que leva a hospitais e cemitérios.
Vontade de ser acompanhado em presídio de segurança máxima.
Vontade de caçar animais,
Fazer crianças chorarem
E beijar sem ser amado.
Vontade de sorrir na cara de quem reza
E de quem espera por Deus.
Desiludido
O refrigerante aumentou minhas taxas.
Recebi a notícia,
depois de tantas ameaças,
como uma punhalada.
Não bebia uísque, cachaça, vinho, vodca ou cerveja.
Era Cola e guaraná.
Caminhei pelo campo,
ouvi passarinhos
e observei pernas que caminhavam na praça.
Desiludido,
recusei-me a recusar chocolate
e sentei-me para ouvir música.
O tempo continua,
saltita entre passado e presente.
Tem o desequilíbrio de um jogo olímpico e
Permanece velho, desbotado e estranho.
O refrigerante deixou-me sequelas
que nem sei a intensidade que resta de tanta fusão.
Vejo-me à toa com uma sombra.
Nasceu no meu quintal,
bem embaixo de umas folhagens secas,
uma plantinha a que dei o nome de Casmurra.
Nasceu num terreno áspero,
possivelmente regado pelo pingo do orvalho das folhas.
Eu a espiava todos os dias
e a vi crescer sem se importar com a minha existência.
Certo dia, pela manhã,
quando o sol adentrou minha janela,
vi que nascera entre suas folhas uma flor,
de uma beleza exótica,
nada digna de sua estrutura que, até aquele momento,
era apenas cativante
Passei a preocupar-me com olhares estranhos e animais.
Ela seguia sua trajetória,
e eu sofria, enciumado.
Um dia, cumpriu sua jornada
e partiu.
ABEL NO CÉU
Inquieto,
entrou e sorriu.
Tudo era novo,
mas de longe avistou Dona Jovem, Lindava, Manu e Zequinha.
Sorriu,
manuseando seu chapéu,
que não tremia mais em suas mãos.
Sua voz estava firme,
seu olhar, meigo,
e seus passos já não eram lentos.
Naquele momento, sentiu-se no Caruá, em Santa Cruz, João Ferreira e Cordeiros.
Caminhou assim, sentindo a brisa.
Apressou os passos,
ergueu os olhos e sorriu.
Trazia consigo a eternidade.