Subi três degraus
No quarto,
sentei à tua espera.
Você chegou com charme
de menina-moça,
sorriu pra mim.
Era amor.
O tempo da poesia é o tempo que guardo para suspender a razão.
Não é um tempo perdido,
Mas o tempo em que uma estrela navega em nossa Via Láctea.
É o tempo de Deus e de todas as dúvidas.
Tem o peso do primeiro amor
E a leveza do primeiro sorriso.
O tempo da poesia alcança as inquietações
E a metafísica.
Guardo meus livros não publicados nos sonhos.
Eles vivem assim, como o frio e a chuva,
Saltam estações e, muitas vezes, são alvejados por incomunicabilidades
Que parecem fenômenos meteorológicos.
Guardo meus livros assim, como uma paixão recolhida,
Com a inexperiência de Romeu ou Desdêmona,
Nem a cegueira da fé de Lear.
Guardo meus poemas como um átomo
Que se liga a momentos meus,
Ela é meu espírito,
E sequestra situações para recriar matéria —
O hidrogênio, por exemplo.
A poesia é um alicerce,
Construído como uma casa de barro,
E mora entre ela a minha vida.
E mora entre ela a minha vida,
E leitores que não conheço,
Quiçá existam.
Por isso sou poeta.
A morte chega
Bate.
Leva sorrisos,
traz saudades,
dissolve sonhos.
Não escolhe momentos,
feito um dragão que consome vidas,
planos,
atos,
segundos.
Antônio Augusto dos Santos Lima Vidal
morreu com cem anos.
Seu último gesto foi o leve movimento do queixo
e uma lágrima.
De que sal era feito aquele gesto?
Viveu cem anos e mais vinte e seis dias.
Antes de partir,
almoçou, tomou seu copo de vinho,
espreguiçou-se na cadeira favorita
e dormiu.
Dormiu,
deixando um queixo em movimento
e uma lágrima.
Iniciava-se assim
o maior mistério da vida.