Uma ode à ingratidão

Aos carrascos que se escondem através da fé

E aos sortudos levianos.

Aos hipócritas bíblicos,

Aos hipócritas amorosos,

Aos satânicos.


Uma ode ao mal

À ingratidão,

Aos punhais que alvejaram Marlowe e César,

Ao grito de pânico,

À dor.


Uma ode ao Alzheimer

Que queima as lembranças presentes,

Ao Gogol que queimou seus textos,

À inquisição.


Deixei todo sorriso no chão,

Pisei nos amantes,

Rasguei o caderno de poesia do jornal de domingo,

Cuspi na sala.


Saiam de mim, pensamentos terríveis!

Eles brotam e cheiram

Como fel.

Sou puro ódio,

Sou desvario amoroso,

Sou um signo oposto.


A porta da igreja está aberta.

Entrei e sentei, sem expressar nenhuma palavra.

O que dizer, se a vida me cala?

O que gritar, se me faltam palavras?


Entrei num bar.

Os amigos e os bêbados adormecidos

Não questionavam as mulheres nem suas dores.

Os ossos de peixes, soltos pelo chão,

Com farinhas e cuspes.


Sentei na praça.

Os evangélicos falavam de Deus,

Sem ninguém a ouvi-los.

Nem namorados olhavam pombos,

Nem flertes de virgens desesperançosas.


Fiquei em silêncio,

Outra vez em silêncio.

O sol rachava meu cérebro,

Os pés doloridos e calejados de tanta luta.

Pensei em deitar no chão e adormecer.


Virei um corpo ordinário e vulgar

Em plena capital.

Ninguém para espiar meu suspiro.

Não há solidão maior do que se sentir morto.

Fechei os olhos e adormeci para toda subjetividade da vida.

 Vontade de brigar com Deus

De perguntar a Ele por que me despreza,

Por que vivo desgarrado, coberto de falsidade, mesquinhez e injúria.

Vontade de sair gritando à sua procura em igrejas fechadas.

Vontade de gritar, gritar, gritar

Para que alguém me ouça e estenda a sua mão.

Vontade de largar a mão,

Ser um mendigo perdido no frio.

Vontade de deitar sob o sol do meio-dia, olhando as andorinhas que cagam em mim.

Vontade de abortar um filho.


Sou impuro,

Sem princípios, caráter ou crença.

Sou o substantivo renegado,

O arroto e o fel.


Vontade de deitar no asfalto

E interromper o trânsito que leva a hospitais e cemitérios.

Vontade de ser acompanhado em presídio de segurança máxima.


Vontade de caçar animais,

Fazer crianças chorarem

E beijar sem ser amado.

Vontade de sorrir na cara de quem reza

E de quem espera por Deus.

 Desiludido


O refrigerante aumentou minhas taxas.

Recebi a notícia,

depois de tantas ameaças,

como uma punhalada.


Não bebia uísque, cachaça, vinho, vodca ou cerveja.

Era Cola e guaraná.


Caminhei pelo campo,

ouvi passarinhos

e observei pernas que caminhavam na praça.

Desiludido,

recusei-me a recusar chocolate

e sentei-me para ouvir música.


O tempo continua,

saltita entre passado e presente.

Tem o desequilíbrio de um jogo olímpico e

Permanece velho, desbotado e estranho.


O refrigerante deixou-me sequelas

que nem sei a intensidade que resta de tanta fusão.

Vejo-me à toa com uma sombra.

Em setembro, no início da primavera, eu desejei beijar-te.
Ouvi Jobim,
visti meu short mais belo e sentei-me na praça.
Sol quente, lembro do sol que queimava minha pele clara
e da rua vazia
de curiosos e transeuntes.
Em setembro, no início da primavera,
as expectativas eram de amar-te e termos filhos.
Você, que parecia nunca chegar, chegou com um sorriso,
pegou meus braços e beijou-me. 

 Dona Isa era meiga

Tão meiga que seu sorriso alcançava a águia que voava

E desfilava a cortar nuvens escuras.

Seu sorriso, tocando em minha mão, era cheiro de carinho e fé.


Dona Isa dorme hoje com Nossa Senhora

Sua ausência vem a mim com sorrisos 

E com a saudade.

 Nasceu no meu quintal,

bem embaixo de umas folhagens secas,

uma plantinha a que dei o nome de Casmurra.


Nasceu num terreno áspero,

possivelmente regado pelo pingo do orvalho das folhas.

Eu a espiava todos os dias

e a vi crescer sem se importar com a minha existência.


Certo dia, pela manhã,

quando o sol adentrou minha janela,

vi que nascera entre suas folhas uma flor,

de uma beleza exótica,

nada digna de sua estrutura que, até aquele momento,

era apenas cativante 


Passei a preocupar-me com olhares estranhos e animais.

Ela seguia sua trajetória,

e eu sofria, enciumado.


Um dia, cumpriu sua jornada

e partiu.

 ABEL NO CÉU


Inquieto,

entrou e sorriu.

Tudo era novo,

mas de longe avistou Dona Jovem, Lindava, Manu e Zequinha.


Sorriu,

manuseando seu chapéu,

que não tremia mais em suas mãos.

Sua voz estava firme,

seu olhar, meigo,

e seus passos já não eram lentos.


Naquele momento, sentiu-se no Caruá, em Santa Cruz, João Ferreira e Cordeiros.


Caminhou assim, sentindo a brisa.

Apressou os passos,

ergueu os olhos e sorriu.

Trazia consigo a eternidade.

Escrevo para os passarinhos.  

Eles me leem quando passam por mim.  

(É um segredo nosso.)  

Cantam e dizem que aprendem comigo os sentimentos ocultos.  

Sou um homem velho  

que se encontra na poesia.

 Hoje, penso em Rei Lear,  

sua grandeza como personagem humano.  

Pesquiso em minha memória  

e vejo a vastidão da peça.  

Tantas histórias próximas,  

desilusões.  

Na vida real, não há tirania,  

há desilusões.  

O amor, em sua maioria, é físico.  

Shakespeare sabia disso.  

Lear foi imaturo em não questionar a vida.  

Caiu o homem,  

cresceu o poeta.


As árvores do parque 

Descansam suas folhas às 15 horas da tarde.  

É domingo.  

Eu, solitário, observo pessoas que cruzam de um lado a outro.  

Muitos sorrisos,  

Alguns gritos, e outros conversam baixinho, falam de suas paixões.


O parque é vasto,

E vasta também é minha visão curiosa de todas as criaturas que passam.  

Não sei seus nomes,  

Não as conheço, ignoro suas histórias de vida.


O parque acolhe todos,  

Até a mim, que me sento em uma de suas calçadas,  

E observo essas vidas.


Não há um pássaro neste campo. 

Todos parecem ociosos.  

Talvez não desejem alegrar nossas vidas.  

Nenhuma formiga veio até mim, para me alertar que vivo.


Quando morrer, 

Serei esquecido e habitarei nessa mesma ociosidade.  

Talvez devesse acreditar em jardins floridos e pássaros que voam.  

Mas não, insisto em acreditar no silêncio.


Lá bem longe, escuto uma melodia.

Alguém está jubiloso, talvez dance,  

Pois seu ritmo me desperta para a vida.


Ainda há aqueles que persistem em ser felizes.  

Não é algo estranho,  

Pois eles sorriem e amam.  

Há aqueles que persistem em extrair da vida sua essência,  

Mesmo coexistindo com os sonâmbulos.


Quando eu tinha 30 anos,

Era um indivíduo apaixonado.  

Quantos sorrisos guardei,  

Quantos sorrisos se dão a quem ama,  

Quantos cumprimentos trocados.


Quando eu tinha 30 anos, pensava que seria pai,


Que teria netos.  

Mas então, a vida se transforma  

Num parque silencioso,  

E os pássaros migraram para outros campos,  

E meu tempo se extingue.


Lá na outra extensão, uma senhora tira fotos.  

Eu penso que também, nesse mesmo momento, tiro a minha.  

Ela do presente,  

Eu do meu passado.  

Ambos com sentimentos antagônicos,  

Mas vivos, como as andorinhas que repousam.

 Hoje eu estou bem,  

Bem assim como quem sai de uma festa,  

Como quem beijou pela primeira vez,  

Como quem nunca amou.  


Hoje saí pela rua sorrindo.  

Olhei, e não liguei para a neblina que molhava meus pés.  

Olhei, e não liguei para o trânsito que estacionava em frente.  

Olhei, e não liguei para o que pudesse ver como entrave.  


Hoje acordei diferente.  

Antônia me olhou e sorriu.  

Cristina guardou para si os seus sussurros.  

Daniel se esquivou de perguntar as horas.  

Marluce pulou da minha peça escrita há um ano e dançou em minha frente.  


Hoje acordei e vi, com o meu travesseiro, os teus lábios.

 Entro na livraria

Vou à estante de poesias

Há poetas mortos e vivos

Há poesia viva

E minha poesia adormecida


Folheio alguns livros

Procuro me educar com poesias inéditas

Me vejo em algumas

Me perco em todas

Não sou poeta

Sou um menino de calças curtas

Que necessita ser homem

 Alice sorri como pula um gafanhoto,

Bem alto, 

              que dobra a esquina. 


O sorriso de Alice dobra a esquina.

 Alice sorri como pula um gafanhoto,

                 Bem alto, 

que dobra a esquina. 


O sorriso de Alice dobra a esquina.

 Um homem morto

Caído no chão 

Desprezado pela sua pele


Que futuro teve o sorriso de criança 

Da mãe que amamentava e beijava seus olhos 


Da caxumba que teve aos doze anos

Do catarro do resfriado

E da sífilis adulta


Um homem jogado no lixo do esquecimento 

Do estado cego

E da sociedade podre


Um homem morto igual a tantos homens mortos

Sua identidade esquecida e agora caída

Talvez nem resista a números 


Um homem morto 

Pela vida que não construiu

Sem direito a padre, sem direito a Deus

Sem ter usufruído a vida de um destino incerto


Não sabemos sua idade

Sua pele não registra os anos 

Seu registro como cidadão é perdido 

Seu sorriso, meu Deus, quem o levou


Multidões o cercam

Muitos viram sua queda 

Muitas mãos recolhidas

Sem acenos

Perdidos em bolsos, em bolsos e paletós de linho


Um homem morto.

Uma criança o olha 

Sua curiosidade a leva a pegar na mão de sua mãe e apertá-la

Ela olha para os seus olhos

E o abraça 

Tão leve o sentimento de mãe 

Tão desapegado o sentimento de pátria

Tão desconexo o sentimento do poeta


Um homem morto

Em um sol de meio-dia

Sem vento 

Sem odor 

Sem sentimento

Jogado à terra que nunca lhe pertenceu


A criança olha outra vez

Seu primeiro sentimento de finitude 

Se perde na curiosidade de mais um dia

Descer pela rua não foi difícil.

Escalar os degraus,

ultrapassar a esquina,

difícil foi não olhar os olhos de Bia.


Pele branquinha, branquinha,

sorriso desses de menina de escola.

Olha ela aí, 

dizia meu olho dominado,

tão bela quanto o peixe no rio,

tão afoita quanto meus desejos de beijá-la.


Olha ela aí,

meu coração quebrava, tão frágil,

que saltava nervoso como um grito de pânico.

Olha ela aí,

minhas pernas freavam,

paralisado feito um ponto final.


Descer pela rua me fez atravessar espíritos,

tão difíceis de serem contemplados, tão perdidos.


Olha ela aí,

o que pensa de mim,

se sou desengonçado para seus olhos,

se sou uma parede branca,

se sou a semente que espera nascer.


Olha para mim,

me descobre com teu sorriso,

põe teus cabelos no meu rosto,

traga-me teu hálito,

descanse nos meus braços.


O que leva Bia no seu sorriso?

As cores fogem dos meus olhos

Não sei se corro , choro 

Ou apago as luzes

 A CERVEJA



Filha: Pai, o sr e o André,  estavam com uma garota de programa?


André: Não!


Pai: Não filha, que história?


Filha: Estavam?


Pai: Não filha...


André: Não!


Pai: Eu explico


Filha: Explica o quê?


Pai: Eu e o André estávamos no bar...


André: Isso


Pai: Aí apareceu umas meninas, eu pensava que eram amigas da faculdade do André...


Andre: Não, não  eram!


Pai: Pois é Não  eram!


Andre: Não era.


Pai: Aí conversa vai, Conversa vem...


Andre: Conversa, entendeu? Conversa de bar


Pai: Isso! Conversa de bar. Quando me dei conta,  estávamos no quarto de cima...


Andre: Eu precisei ir com ele


Filha:  Pai, o senhor levou meu noivo a  um quarto de uma garota de programa?


Pai: Não  filha, não.  Foi a cerveja

Carminha entra pela casa adentro,

Um sorriso aberto,

Que faz a brisa entrar consigo.

Briosa

Fala alto,

Ri feito uma montanha.

Carminha,

É cria de Deus,

Igual a andorinha