O tempo da poesia é o tempo que guardo para suspender a razão.

Não é um tempo perdido,

Mas o tempo em que uma estrela navega em nossa Via Láctea.

É o tempo de Deus e de todas as dúvidas.

Tem o peso do primeiro amor

E a leveza do primeiro sorriso.


O tempo da poesia alcança as inquietações

E a metafísica.


Guardo meus livros não publicados nos sonhos.

Eles vivem assim, como o frio e a chuva,

Saltam estações e, muitas vezes, são alvejados por incomunicabilidades

Que parecem fenômenos meteorológicos.

Guardo meus livros assim, como uma paixão recolhida,

Com a inexperiência de Romeu ou Desdêmona,

Nem a cegueira da fé de Lear.

Guardo meus poemas como um átomo

Que se liga a momentos meus,

Ela é meu espírito,

E sequestra situações para recriar matéria —

O hidrogênio, por exemplo.


A poesia é um alicerce,

Construído como uma casa de barro,

E mora entre ela a minha vida.


E mora entre ela a minha vida,

E leitores que não conheço,

Quiçá existam.


Por isso sou poeta.

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